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Poesia - 2016 / 2024 |
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2024 |
| Eu vou fazer um poema | ||
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Eu vou fazer um poema em que diga apenas que te quero amar fonema sem jeito, replicado no efeito da música moldado tremendo e gemendo no ar em sons breves e talhados por feitiços de enamorados gritando loas e cantando fado
Eu hei de fazer um poema quando estiver inspirado… |
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Avelino Rosa Odivelas, 08-05-2024 |
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2022 |
| Pássaro livre | ||
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Libertei um pássaro que não quiz voar ficou-se a debicar grãos pelo lado de fora da gaiola
Decidi então voar eu por entre o milherial do serrado.
Avelino Rosa Odivelas, 10-03-2022 |
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2021 |
| Mariazinha | ||
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Mariazinha, eras minha antes de adulterar a imensa estima, o meu enigma em te amar
E, pois, não sei o que aconteceu e antecedeu mandares-me passear e chular uma mais fácil de engatar, de enganar, bêbado do conhaque como no Almanaque de Banda Desenhada que arrancávamos as páginas e copiávamos estranhas simetrias, falávamos de outras manias e caíamos para o lado, feitos parvos e devassos numa orgia imaginada de fatal e cruel epidemia
Acordados, com halo a bagaços mais que curtidos íamos um para cada lado, sobre os joelhos e braços até que a porta batendo forte nunca mais se abriu
Não foi o sexo abjeto e doentio que nos separou mas o fusível queimado que me desligou.
Adeus, amor!
Avelino Rosa Odivelas, 19-10-2021 |
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| Não quero que chores | ||
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Na verdade, não quero que chores por mim só te peço que consintas que desatinemos dentro de ambos como nos lembramos da primeira vez em que se fez luz e ternura doce loucura dos momentos felizes e eternos que deixam as marcas do inferno e dos céus numa secura, brandida e dura, transida de dor e prazer irreverente, complexa partitura de uma sinfonia melódica sempre presente no meio do ruído dissonante e permanente coado pelos lençóis de linho desalinhados indecentemente.
Avelino Rosa Odivelas, 16-10-2021 |
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| Idade para o desatino | ||
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Escondidos, fazíamos aquilo que sabia sempre a pouco que loucos fomos, que loucos somos ainda…
Já temos idade para o desatino o tino ficou algures num marco de correio em cartão turístico, em carta inebriada sempre falando de amor e quase mais nada e a dobra do tempo em nada importou calou apenas as bocas que expeliam fel papel que não perdurou por cansaço e embaraço de quem não vive satisfeito
A quem presto o meu preito, infiel.
Avelino Rosa Odivelas, 14-10-2021 |
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| Não sei, nãp sei | ||
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Não sei, não sei porque estou tão triste porque persiste este tom magoado
Não sei, não sei porque caem lágrimas dos olhos fechados afastando o passado
Não sei, não sei porque as ribeiras são rios e os rios são mares indomáveis indecifráveis
Só sei que desaprendi o que a vida me ensinou desatinando-me os ouvidos.
Avelino Rosa Odivelas, 23-08-2021 |
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| Lágrima | ||
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A lágrima que me escorre do canto do olho, já não é lágrima é um visco espesso, quente, de cor alaranjada, queimando como lava e transformando o meu rosto, depois o corpo, numa secura de rio que se perdeu no caminho para a foz separando-se definitivamente de nós
Ausente agora de querer, faz crescer a terra no mar, juntando pedra ainda por moldar.
Avelino Rosa Odivelas, 19-09-2021 |
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| Antropofagia | ||
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Se te amassasse mesmo comia-te com pão e chouriço ao pequeno almoço tardio degustando um vinho alentejano reserva exclusiva do nosso amor que se espraia pela planície mar molhado e quente da loucura que nos toma pelas manhãs…
No meio da dispneia que me tinge de montanha e mar solto e revolto mordia o teu ser, saboreando cada pedaço, dos olhos aos pés de menina fixando as pupilas de felina a dilatar no êxtase da luz que te deslumbra
ainda sem te saciar.
Avelino Rosa Odivelas, 22-08-2021 |
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| Abril depois | ||
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Cansado me deito e mais cansado me levanto não é espanto do sono tardio apenas vivo sonhando contigo
Dizes que me amas mas cortas cordas de guitarra de Coimbra ora ladina, subindo nos tons fortes ora morrendo, no final das estrofes
Do Penedo da Saudade, o medo de te transformares em Rainha sob a lua desvanecida e enganadora e te saborear virgem morta, ardendo no Inferno, em brasa, em degredo
Só falta voltar, de mãos dadas, abraçados percorrendo a noite dos amantes esquecendo os instantes desatinados
Avelino Rosa Odivelas, 25-04-2021 |
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2020 |
| Cansado | ||
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Cansado me deito e mais cansado me levanto não é espanto do sono tardio apenas vivo sonhando contigo
Dizes que me amas mas cortas cordas de guitarra de Coimbra ora ladina, subindo nos tons fortes ora morrendo, no final das estrofes
Do Penedo da Saudade, o medo de te transformares em Rainha sob a lua desvanecida e enganadora e te saborear virgem morta, ardendo no Inferno, em brasa, em degredo
Só falta voltar, de mãos dadas, abraçados percorrendo a noite dos amantes esquecendo os instantes desatinados
Avelino Rosa Odivelas, 25-08-2020 |
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| Não sei cantar | ||
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Não sei cantar e tenho pena embora em coro faça da minha voz teorema que ainda me consola e salva a minha reputação Depois de tocar trompete e clarinete dirigir o coro da capela da Igreja que faz inveja a muito homem beato desfaço a combinação de imediato: sou agnóstico militante, votante da angústia, crua e diletante da criação do Universo, pela divindade ou pela instabilidade do Big Ban também inexoravelmente inexplicável
Ninguém sabe nem nunca saberá como tudo começou: eu, tu, a matéria inerte ou que medra sempre estudada acabando em quase nada, verdades sempre adulteradas pelo tempo lento ou repentino, soltando vírus mortais que confinam e abrem brechas mentais - letais!
Não sei cantar e cada vez menos afino a minha voz pelo ruído que me atordoa pela insanidade que vai grassando e ressoa, corroendo a Humanidade. Avelino Rosa Odivelas, 05-08-2020 |
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| Demasiado | ||
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Demasiado foi ir para além do que poderias sentir e serias capaz de aceitar - apetecia-te o mar a mim apenas apanhar as conchas que se abrem e expõem pérolas apetecíveis
Saboreá-las era o sonho que sonhei a dois, incompleto nos momentos transcendentes dos amantes que experimentam a vida vivida e renovada sempre
Demasiado fui, pecado assumido mas se te adoro e te sinto em mim espero ser perdoado e redimido por gostar de ti tão intenso assim.
Avelino Rosa Odivelas, 11-06-2020 |
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| Carente de tudo | ||
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Carente da vida, morrendo de tudo e de nada roubados à força escondida
que percorre o meu corpo vivo e sequioso de sustento que só posso sussurrar-te ao ouvido, num lamento, e desejo de extrema unção
Não, não estou para partir ainda, mas para te amar sou capaz, de moribundo me fazer ao Mundo, o que apenas contigo comungo.
Avelino Rosa Odivelas, 10-06-2020 |
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2019 |
| A Centopeia | ||
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A Centopeia perdeu cinquenta pernas e pensou que ainda lhe restavam outras tantas O Tempo, indiferente e galopante fez-lhe perder mais umas quarenta e tais
Mesmo só com três pernas a centopeia disse: - a vida continua, vou rastejar como outros animais
Mas, num instante, um grilo louco desequilibrou-se no escuro e partiu as pernas que restavam à Centopeia
Então agora, ela já disse: tudo bem, já não quero nada nem saber se a vida é inconsequente, dura ou madrasta apenas quero morrer, sozinha, livre e descansada.
Avelino Rosa Odivelas, 06-09-2019 |
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| Viver para quê | ||
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Vive-se para amar, ser feliz para ter família, homilia e via sacra alternada entre quase tudo e muito nada
Para navegar nas ondas do mar mergulhar na lava liquida e ardente que tudo reduz a pó e a pedra com que se constrói adegas e casas onde se faz e prova vinho e aguardente
Dementes nos fazem os dias… sem culpa de ninguém, apenas da vida que nem sonhámos e não vivemos morrendo, aos poucos, em extremos autoflagelo do corpo que esquecemos
E que, já abandonado ao destino sabido só queremos que tenha sentido o final momento fatal e redentor e que as cinzas espalhadas ao vento apaguem a dor. Avelino Rosa Odivelas, 16-08-2019 |
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| Ciúmes | ||
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Tenho ciúmes de ti, confesso porque te amo além do amor…
Sabor a ti é um travo que sobe à boca e à cabeça, em visões de sabor agridoce e à saudade do teu corpo em movimento lento e encabrestado no fio louco do sexo silente, gemido ou gritado
Tenho ciúmes de ti, confesso sempre que penso que alguém te possa ler e interpretar mais
e melhor do que eu.
Avelino Rosa Odivelas, 09-03-2019 |
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| Constipado | ||
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Ping… ping… ping uma ribeira correndo e eu morrendo intermitente, prostrado na cama molhada
Avermelhado entumecido, esfacelado lenços de papel deitados por todo o lado
Ping… ping… ping é o meu nariz desfeito descolando da pele de quem está constipado. Avelino Rosa Odivelas, 12-01-2019 |
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2018 |
| Ano Novo | ||
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Não sei porquê o Ano é Novo se caminho para velho, sem remissão porque se renova em todo o Mundo se eu somo mais pecados sem razão
O novo e o velho em função da idade é apneia de quem vive intermitente entre mezinhas de doentia saudade mergulhada na ausência e indiferente vida de anunciada morte antecipada
Eu vivo, dia a dia, de fantasmas desligado pronto para partir, depressa, sem despedida não porque irremediavelmente condenado mas porque o destino da existência vivida
esgotou-se nos excessos da voracidade.
Avelino Rosa Odivelas, 31-12-2018 |
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| Ceia de Natal | ||
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Espero-te para a ceia de Natal - traz-te inteira tu própria
Já encomendei bacalhau peru, azevias e rabanadas branco e tinto distinguidos no ranking dos vinhos mais gostosos e afamados
Mas bastava-me ter-te comigo no sabor amargo do Natal em que és o especial tempero da minha vida amargurada. Avelino Rosa Odivelas, 23-12-2018 |
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| O Tempo | ||
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Sou o tempo passo depressa e lento dentro da tua cabeça
Mas moldo o teu corpo transfigurando-o até à escultura final
- de esbelto a fatal
Sou o tempo saboroso e desgastante o princípio e o fim de ti.
Avelino Rosa Odivelas, 23-12-2018 |
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| Descanso em paz | ||
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Tombando a cabeça na velha almofada de linho desgastada pelo tempo, pela humidade que atravessa paredes e faz nascer fungos verdes, azulados, matizados de uma evolução branca e negra imparável e desordenada, sempre ou simplesmente retrato fiel do meu corpo vivido, despido marcado por todas as maleitas
Vivo descansando de mim próprio.
Avelino Rosa Odivelas, 29-11-2018 |
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| Sol intermitente | ||
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Não sei do amor e mais ninguém saberá quantas vezes tenho de dizer, saber que outra mulher virá
Só, na cama desfeita de pranto e carente de um corpo quente de um beijo que arde nos lábios, na boca semente de paixão que explode louca no meu e teu coração dilacerado e ausente.
Avelino Rosa Vialmoura, 25-03-2018 |
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| Não sei do amor | ||
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Não sei do amor e mais ninguém saberá quantas vezes tenho de dizer, saber que outra mulher virá
Só, na cama desfeita de pranto e carente de um corpo quente de um beijo que arde nos lábios, na boca semente de paixão que explode louca no meu e teu coração dilacerado e ausente.
Avelino Rosa Odivelas, 18-03-2018 |
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| Não tenho medo | ||
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Não quero saber dos achaques que podem adiantar o meu corpo nem dos males que me possam atingir nem da piedade que me possa ungir
Apenas me preocupa ver no teu olhar a sombra de desespero que deturpo debitando decibéis de sons sem nexo perplexo eu, nas luzes multicolores abutres adivinhando a longa agonia
Só tenho medo por ti, da vida sofrida do sacrífico que a nada leva e consola do amor sem alimento e do amargo do sabor das violetas roxas e mortas
Lembra-me, descolorido, espalmado e inerte, entre as folhas de um livro!
Avelino Rosa Odivelas 08-03-2018 |
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| Orquídea | ||
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Uma orquídea é um regalo um conto a tua magia da noite debruada a tapete de Arraiolos ponto, por ponto, representando a parte da soma dos pedaços que podes apresentar como vida onde sou o fio, liso e descontinuado argamassa efémera e intermitente
Por isso entendo as tuas lástimas a ausência e rudeza das mágoas as meias verdades dos factos a que reconheço o direito da verdade
Nas entrelinhas das mensagens jogamos as emoções e a realidade não sei, nunca saberei, o porquê deste amor que não me liberta nem me despega de ti e da memória que permanece para além das zangas mesmo que demandas de ultimatos
Deles, já farto, volto a repetir tudo do nada que me tinha imposto, o mosto do vinho que me refaz o domínio breve da liberdade, da vontade de te esquecer
Já não sei, não sei mesmo, como te amar neste vórtice de sensações e emoções em que morro e renasço, ao sabor dos teus argumentos e explicações.
Avelino Rosa Odivelas, 03-03-2018 |
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| Dos meus olhos a tua cor | ||
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Dos meus olhos nasce a cor dos teus cabelos emaranhados do teu rosto moreno e quente do teu nariz arrebitado e ausente dos teus lábios serenos fechados
É assim que te vejo com a dor do tempo que se esvaiu vazio de segredos e medos entrançados nas entranhas estranhas do corpo ímpio e belo, morto e ressuscitado sopro, apelo e beijo furtivo amado
O fado da cor de que vivo espoliado.
Avelino Rosa Odivelas, 16-02-2018 |
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2017 |
| Sempre me apeteces | ||
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Sempre que me apeteces o momento é de espanto
Confundidos na volúpia das coisas simples e eternas nos corpos renasce a energia da hora, do dia, do cosmos quedando apenas no infinito
Quando as searas aquietam e o sol tomba no horizonte fico à espera do teu abraço do teu corpo trémulo e ainda morno na minha pele adormecendo
Até que me tome de novo o espanto de te amar tanto.
Avelino Rosa Odivelas, 05-11-2017 |
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| O nó | ||
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O nó é apenas o fim da corda que me envolve tolhendo-me os movimentos anulando-me
Tento, em vão, desfazê-lo detectando as sinuosidades rebuscando os fios emaranhados para inverter o processo mas apenas consigo apertar mais, amarrar a vontade de ser livre
Regressei nas águas das marés enredadas de breu e penugem das gaivotas que desistiram
de voar.
Avelino Rosa Odivelas, 05-11-2017 |
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| Fado choradinho | ||
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O fado assim choradinho Puxado ao sentimento É trinado, coitadinho É a alma deste cantinho Palavras lançadas ao vento Sopro de novo alento
Quem diz que odeia o fado É porque não sente nada E nada mais já lhe empresta O coração despedaçado
O fado também é pecado É um beijo sentido É ciúme apaixonado Um olhar arrependido
É um amargo de boca Uma saudade perdida No cais de uma doca Murmúrio de despedida
É um veleiro que parte De asas brancas ao vento É uma dor que agarra Que tolhe o movimento
É uma secura sem sede O desafio ao sentimento O abandono à loucura Uma alma em sofrimento Ser magoado que se despede.
Avelino Rosa, Odivelas, 05-11-2017 |
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| Palavra engaiolada | ||
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Engaiolei uma palavra bem fechada e num canto da casa já de si cinzenta
Era uma palavra doce que não queria fonetizar e que teimava, permanentemente sair a voar, espalhando boatos
Bem fechada, emudeceu secou, cerrando e colando os lábios gretados e exangues
quando a quis pronunciar tinha morrido!
Avelino Rosa Odivelas, 29-10-2017 |
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| Cabelos flamejantes | ||
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Os teus cabelos são chamas que incendiam, ardem o meu corpo imolado à floresta verdejante silenciada nos meus pensamentos
Mergulho nos sonhos de lava das pedras que protegem as uvas património da Humanidade lembranças de mim que também vêm do vulcão e da lava expelida que fez nascer o homem e as coisas
No meio do turbilhão pueril os teus cabelos flamejantes dão vida à noite onde moro sempre inconsequente!
Avelino Rosa. Odivelas, 19-10-2017 |
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| O "Coice" da "Mula" | ||
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O “coice” da “mula” foi violento mais assim como uma patada apaixonada, no auge da refrega “reset” de um coração tresloucado travado dos cento e vinte aos sessenta de repente, estômago vazio colado à espinha esticada sobre a cama da UCI aqui onde tudo acontece, célere e lento da morte ao milagre da vida renovada o mistério inexplicável do momento.
(Aos meus médicos e aos enfermeiros da UCI da CUF / Infante Santo, a propósito da recente cardioversão elétrica)
Avelino Rosa Lisboa, 27-03-2017 |
| Não é desta ainda | ||
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Não será desta ainda sou duro de roer… Vem Ela, personalizada viúva das noites sombrias tecer teias finas, frias esfomeada das presas carentes e desbotadas das crenças e dos nadas rasgadas de prantos à capela mistela de sabor a fel amargo.
Assim ficarei, quedo, expectante que o meu herói é o Infante que ainda me faz perscrutar terras, gentes e ninfas por sonhar.
Naufragarei apenas no meu mar!
Avelino Rosa Odivelas, 24-03-2017 |
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| Não sei se é adeus | ||
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Não sei se é adeus até amanhã um destes dias ou até sempre
Mente quem sabe que a vida se esgueira como uma enguia até ao momento da derradeira vitória da solenidade
É como nos põem atinadinhos, nós que desatinámos desafiámos a loucura e sobrevivemos a tudo ingénuos e indecentes de demasiada ternura
A arritmia dos minutos vividos intensamente vinga-se agora, latente garra e punho quentes rasgando do peito a vida em derepentes feito o corpo estátua fugaz dos últimos olhares já quase indiferentes
Somos nós assim. No fim.
Avelino Rosa Odivelas, 23-03-2017 |
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| Querer e sonhar | ||
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Não me acontecia nada, nada do que eu queria sentir, viver, saborear…
O Mundo esquecera-me… Lia, procurava, escrevia, mas morrera para todos. Nem a fantasia de imaginar me levava ao final de nada.
Morri nos idos de Maio, imaginando que era capaz de sonhar!
Avelino Rosa, 14-03-2017 |
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| Relicário | ||
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Sei que pouco tempo me resta mas todo o que passo contigo é redenção do tempo perdido
Murmúrios tímidos, naufragados no tempo, consentido e fadado para a talha dourada de altar onde a memória escorre devagar no relicário, onde bem guardada permanece a nossa história.
Sei que pouco tempo me resta mas todo o que passo contigo é redenção do tempo perdido.
Avelino Rosa Odivelas, 04-02-2017 |
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| O lado negro dos teus olhos | ||
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Estou do lado negro dos teus olhos por detrás desses lasers cortantes e sombrios que despem e despojam os que encantas e destróis num passe breve, vindo do nada de menina mal comportada
Ao nada voltas, redescobrindo novos sortilégios, novos incautos repetindo sempre as mesmas e mais rebuscadas brincadeiras bebedeiras do teu ego mimado
Do teu lado negro cego e depravado, observo apenas sorrindo e enfadado.
Avelino Rosa, Lisboa, 24-01-2017 |
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2016 |
| IPa Pui Sá | ||
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Pa pui sá leca, teca, peca pardaleca
Pita, fica, pica framboesa, siricaia pardalita
Sal apimentado inesa de madrigal jorrado
Mui tó sái perdido em ti fi, fi.
Avelino Rosa Odivelas, 04-12-2016 |
| Infinito | ||
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Meu pai semeou minha mãe, terra fértil
Vim do infinito e ao infinito retornarei
Esquisito este vaivém!
Avelino Rosa Odivelas, 03-12-2016 |
| Intervalo | ||
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No intervalo que é quando eu falo - a tempo incompleto - fazes alusões - a tua verdade críticas pela metade - e tiras conclusões
Então eu reformulo tento ser mais claro mas ficamos na mesma - eu enfadado e mudo tu senhora de tudo – Nem sei qual a ofensa inventada ou recriada
E ficamos assim, amuados num silêncio angustiado centrados no umbigo à espera que a tempestade passe e aqueçam os corpos e a paixão nos consuma em carícias, ais e gemidos trocando todos os sentidos.
Avelino Rosa Odivelas, 03-12-201 |
| O cigarro e o uísque | ||
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O cigarro e o uísque afogam as mágoas que não tenho
- porque sinto para além da mágoa e da dor reais?
Desisto das explicações metafísicas e desordenadas de uma mente que não pára de escavar fossos profundos e de avolumar montanhas de e do nada.
Avelino Rosa Odivelas, 27-11-2016 |
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| Rima da vida | ||
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(Refrão) Se há rima é uma só uma a que te digo ao ouvido com que te quero convencer a fazeres amor comigo
(Refrão)
E é tão intensa a vontade tão premente o meu desejo quero-te agora, neste instante ao sabor molhado do nosso beijo
(Refrão)
Depois não sei que te diga mas quero que fiques a meu lado que me abraces com ternura dando sentido a este fado.
(Refrão)
Avelino Rosa Odivelas, 05-10-2016 |
| Beijo pesadelo | ||
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Era uma vez, alguém que fez de um beijo um pesadelo Encontrou o amor da vida e num desvelo, apaixonado deixou-se levar, abandonado pela doce letargia do sonho
(Refrão) Onde ponho os meus segredos fantasiados de medos, degredos na loucura do desejo breve e puro no escuro dos lençóis alados?
Olhar enfeitiçado, voz dormente boca sôfrega, molhada e quente vontade de ti, sempre presente saboreando o teu corpo suado morrendo na entrada para o céu de um mundo sôfrego e abençoado
(Refrão)
Sinto ainda o teu cheiro imaculado que me eleva a santo tresloucado o teu sabor a néctar, que embriaga e me causa espasmos, um estertor um quase milagre da vida parada que renasce em pleno esplendor.
(Refrão)
Avelino Rosa Odivelas, 05-10-2016 |
| Vou depressa, vou embora | ||
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Vou depressa, vou embora dar às de Vila Diogo o meu amor tem pressa de partir
(Refrão) Parto ausente de mim mesmo buscando-me neste caminho quero encontrar a alma perdida no vão da escada apertadinho onde lambi no corpo cada ferida
Vou depressa, vou embora o meu amor já me espera quer ir para o Alentejo lá para os lado de Mora adeus ó Tejo
(Refrão)
Vou depressa vou embora não sei qual é a pressa do meu amor perder-se no Alentejo em Mora, Redondo, Elvas ou Beja para mim são todas quentes suam como Ela.
(Refrão)
Avelino Rosa Odivelas, 05-10-2016 |
| Não sei que dirão de mim | ||
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Não sei que ficará de mim na memória dos que me fazem sentir verbo e ser por inteiro - homem, amigo, amante da vida
Não sei que dirão de mim depois das horas de vigília e olhar perdido no cansaço das despedidas sem beijos ou abraços consentidos abandonado ao calor dos corpos magoados e já em modo de saudade a matar pela Páscoa, Verão ou Natal
Não sei que dirão de mim sabendo que não venho mais aqui a outro lugar ou em nenhuma estação porque parti numa viagem sem regresso pelo universo por que me espalho nas múltiplas centelhas de nadas
Não sei que dirão de mim quando já nem uma memória houver quando um texto nem for pretexto para desfolhar o autor que o escreveu - a biografia algures ao canto da folha do papel vencido pelo tempo inexorável
Não sei que dirão de mim… Mas posso dizer, com certeza, antes de partir que quero viajar, apenas em pó, pelo mar e navegar, como sempre, entranhado no mistério da imaginação e do desafio que dá consistência aos seres vulgares.
Avelino Rosa Odivelas, 05-10-2016 |
| Quando morremos | ||
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Quando morremos morremos mesmo frios, impávidos, esbranquiçados de olhos fechados, serenos - é assim que nos vêm direitinhos e aconchegados no caixão mais ou menos elaborado
Morremos tal e qual assim mesmo, finados, sem mais - se uns ainda suspiram uns ais outros, cumprindo calendário, riem ao fundo, sob o fumo do cigarro em conversas triviais e de reencontro que faria morrer de novo o defunto
Morremos e pronto - e ainda bem que partimos sem destino há que descansar de todo este desatino.
Avelino Rosa Odivelas, 03-10-2016 |
| Prece | ||
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Ergo os braços ao céu com os punhos cerrados invocando as forças ocultas da natureza selvagem
Não sou eu e as plantas e árvores amolecido, sem voz e indefesas É a sobrevivência, como entidade que me impele à prece silenciosa que projeto no espaço carregado de cinzentos e dilúvios dispersos
Um arco-íris nasce imponente Nos dedos reluzentes de gotículas pousam duas borboleta multicolores
O meu mundo ainda tem vontade - renasce sempre do sonho apetecido.
Avelino Rosa Odivelas, 18-09-2016 |
| Lua magoada | ||
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A lua magoada adormece no lago Eu, atormentado escureço na areia
Se canta a sereia eu não sei cantar morro enregelado longe do meu mar
Ela amargurada estende o seu manto Deixei de amá-la para meu espanto
Trago cigarras na voz enrouquecida guitarras de pranto nas veias ardidas.
Avelino Rosa Odivelas, 25-08-2016 |
| Decadente | ||
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Decadente, não recuso o epiteto e menosprezo de quem, impotente, estende a agonia própria aos outros.
Homem ou mulher, fedem no insulto barato e insensato julgando que o seu próprio drama que os impede de realizar contagia toda a humanidade.
Mas não. Há quem mantenha o sonho, a ternura e a paixão como condimentos da vida real sem rodeios e constrangimentos bebendo a vida em cada gole
- saboreado o copo cheio da vida.
Avelino Rosa Odivelas, 15-08-2016 |
| Quando eu morrer | ||
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Quando morrer que seja breve e indolor o instante. Que ninguém sofra por mim, apenas me lembre por um momento. Se renascer, que seja figura de prova de navio que desafia o mar. As ondas não são tormento mas escolhos da estrada a navegar. Vou assim, Infante, sobre um mapa, de rumos traçados pelo sonho de ir e não voltar.
Avelino Rosa Odivelas, 23-07-2016 |
| Só | ||
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Só
Fui indo só
Mata-me a saudade dos amores inconseguidos.
Avelino Rosa Odivelas, 21-06-2016 |
| Marinheiro | ||
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O homem trazia navios no olhar na boca um cachimbo de âmbar esvoaçava em gaivotas perenes que desaguavam em lugar nenhum
se navegara pelo Mundo muitas tormentas passara a pele curtida em sulcos profundos mostrava quilhas de navios afundados leitos secos de rios empedrados
nunca mais vi o homem que do cais olhava o mar ao longe vendo a vida passada aos bocados os portos de abrigo e prazer que lhe haviam sido dados
não vi um sorriso, um olhar brilhante senti apenas que estava distante nele no seu mundo a saudade de ser navegante
gaivota errante, na pureza do fim da tarde.
Avelino Rosa Odivelas, 03-06-2016 |
| Já não me amas | ||
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Perdeste o sabor dos meus beijos o toque mágico das minhas mãos as carícias suaves à flor da pele o fogo que incendia a paixão
O vulcão já não deslumbra limita-se a estremecer os corpos a expelir lava cansada de solidão
Porque já não me amas.
Avelino Rosa Odivelas, 01-06-2016 |
| Palavras circunstanciais | ||
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As palavras são lírios ou punhais
que florescem primaveras ou destroem, letais
As feridas perduram para além dos golpes mortais.
Avelino Rosa Odivelas, 28-04-2016 |
| Tapete de Arraiolos | ||
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Mágoa magoada do nada que era tudo e universo primavera e silêncio agora informe aroma de incenso pedaço, bocado tapete bordado de Arraiolos talvez ou de Portalegre tapeçaria, ponto de nó o pesponto que me fez ter dó de mim mesmo
Libertar-me, nem é morte ou vida apenas cansaço de tanta despedida.
Libertadora a morte na dualidade.
Avelino Rosa Odivelas, 09-04-2016 |
| Já não choro | ||
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Já não choro porque não tenho mais lágrimas para derramar
Foram tantas e tantas que o rio secou, deixando as margens exangues um ou outro tronco encalhou nas rochas talhadas na montanha pelas águas cristalinas de outrora - estreitando-me o caminho
Não chegarei à foz tolhem-me os pedregulhos do leito e o corpo cansado, quase desfeito ansiando pela maresia que sinto ao longe mas que nunca irá inundar a secura e arrastar-me para onde queria naufragar - o meu mar.
Avelino Rosa Vilamoura, 26-03-2016 |
| Sou mineiro (Cante alentejano) | ||
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para o Grupo Coral de Aljustrel |
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Sou mineiro sou toupeira cavo, escavo minha campa
cangalheiro na cegueira esqueço o medo segredo da vida dura e madrasta
trago sarro tusso, escarro minha sorte abandonado
companheira a minha morte há de ser terra tua lembrança sabor a amargo
adeus amor sei que vou partir a dor é redentora para mim és tudo e a vida já nada
adeus amor até à madrugada
Avelino Rosa Odivelas, 22-03-2016 |
| Ontem morri | ||
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Ontem morri esmagado pela pedra que ocupou o teu peito
Culpa minha tê-la deixado crescer assim tão dura e fria sempre a anoitecer
Ontem morri ainda sonhando contigo com a mão redentora inimigo de mim mesmo
Ontem morri hoje, amanhã, outra vez talvez não volte nunca do jazigo sem epitáfio
debaixo dessa pedra de marfim. Avelino Rosa Odivelas, 17-03-2016 |
| Flor de lava | ||
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Uma flor brotou da nudez pura de uma pedra de lava simples e rude Cresceu majestosa, colorida como um arco íris tresloucado
Alguns admiraram simplesmente a beleza outros, o milagre da vida mistério improvável e mais uns quantos, fundados em razões científicas e de lógica, em coro, concluíram que a flor era a reacção cósmica e colateral consequência emanada do núcleo do vulcão
- A vida existe, porquê a queremos viver e muito para além da ignorância humana.
Avelino Rosa Odivelas, 12-03-2016 |
| O nosso ritmo | ||
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Vou repetir-te, devagarinho, com a voz colocada na garganta: Aamoo-tee! E assim o som ressoa um bocado ridículo e deprimente com o jeito da gente enamorada, mas autêntico, original, verdadeiro em cada singular momento.
Não quero saber de nada: rima, fonética, sonoridade… apenas o nosso ritmo louco, ora extasiado no olhar lento ora acelerando cada partícula dos corpos incandescentes.
Não quero saber de nada: apenas que me sinto em ti, sempre dentro de ti. O prazer é ter-te colada, pronto a morrer de tanto amor feito e sonhado - quente e molhado!
Avelino Rosa, 04-02-2016 |
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