Este conteúdo está,  geralmente, publicado na Páginas Pessoal, em Poesia e Prosa, por ordem cronológica.

Pode aceder à minha página completa clicando em "Página Pessoal" nos cantos direitos superior e inferior.

Página Pessoal

 
 

    

 
 
 

Veja mais, clicando no canto direito, superior ou inferior desta página para aceder à pagina principal.

 

No calor da terra

    

 

A Grande Estrela

    

Esta é uma estória que deriva da história dos reality shows.

 Também podia ser uma estória consequência da história

 ou de um acidente causado pela televisão. 

    

     O rapaz estendeu a toalha e centrou-se olhando a piscina. Num primeiro relance, parecia normal, como qualquer outro jovem da sua idade, entre dezoito a vinte anos. Mas, pelos trejeitos, abanar da cabeça, calções de banho – com um símbolo de Big qualquer coisa -, colar extravagante – talvez oferta de alguma tribo africana ou da Amazónia – e corte de cabelo, invulgar no mínimo...  Não, afinal ficava uma certa dúvida.

     Ali perto, duas raparigas olhavam-no com insistência, conversando cada vez mais animadamente, como se experimentassem um titubeante desacordo. A sua agitação contagiara já outras mulheres, jovens e adultas, um pouco em redor de toda a piscina.  O rumorejar ia crescendo, zumbindo e zunindo como prelúdio de uma tempestade sonora prestes a desabar sobre aquele rapaz, um pouco cadavérico, agora de olhos fixos numa pinha aconchegada na relva, como se esta encerrasse um mistério insondável, perceptível apenas a mentes privilegiadas.

     A concentração, de filosófica profundidade, foi interrompida por uma jovem mais atrevida. – Você não é o...? – Sou, ainda não tinha percebido? – respondeu ele como se a recriminasse, e nela a todos, por não o terem reconhecido logo. Quase todas as mulheres e mesmo alguns homens, saltaram das toalhas e de umas poucas cadeiras de praia, como se catapultados por molas, quiçá dissimuladas nos florezinhas, Coca-Cola, âncoras, barquinhos à vela, paisagens e outros desenhos, desbotados de ano para ano pelo suor dos corpos, talvez numa tentativa de publicitar por osmose.

            - E como te chamas? – Eu..., eu... Lúcia... – E eu Andreia... – Eu sou a Maria... – Calma, calma, uma de cada vez! O rapaz distribuía autógrafos freneticamente, com uma destreza que contrastava com o seu anterior estado de zumbi. Escrevinhava em tudo. Bolas de praia, t-shirts, revistas do jet-set, maços de tabaco, telemóveis, chinelos e mesmo por cima de alguns umbigos. Duas desinibidonas, bem redondinhas, não se coibiram até de um toque mais íntimo, nos seios e nas nádegas, retirando a parte superior do biquíni e baixando a inferior, sem tibiezas nem pudores. A mão do rapaz tremeu perante a visão, olhando embasbacado, fixando-as como quando observara a pinha. Deixou escapar uns sons esquisitos, quase como se estivesse a cacarejar ou dando milho a galinhas. Poderia parecer uma atitude anormal, mas não, todos riram, falando e gritando ainda mais alto o seu nome, numa espécie de lengalenga repetitiva que abafava o ruído da avioneta que convocava os fiéis da noite para uma boîte do Algarve.

 

 

     O rapaz parecia um padre de confissões rápidas, que concedia a absolvição com uns dizeres e dois beijos repenicados. Fossem mais ou menos pesados os pecados, a penitência era sempre igual. O semblante das beatas também não mudava muito, sempre embasbacadas, aparvalhadas, como se lhes tivesse dado um troço ou um treco, na versão brasileira de arritmia. Algumas até se ajoelhavam, agarrando-se-lhe aos braços, beijando-lhe as mãos. Era preciso despegá-las, como se desgarra uma lapa, tarefa de que as precedentes se encarregavam de bom grado. Saiam cambaleantes, trôpegas, com a mão na cabeça e os olhos no escrito. Duas caíram mesmo à piscina, como se estivessem em desequilíbrio de uma gravidez instantânea e milagrosa.

     Um enxame de abelhas, que trabalhava afanosamente nas flores das redondezas, fãs ou irritadas com tanta movimentação, armaram-se em formação de ataque, dispersando, em segundos, aquela multidão quase enlouquecida. O rapaz ficou só, hirto, de braços descaídos sobre as ancas, como um ineficaz espantalho contratado para espantar pardais. As abelhas voavam em círculo ao seu redor, talvez para manter as pessoas afastadas do seu local de trabalho ou, simplesmente, prestarem também uma homenagem ao ídolo feito estátua. O certo é que ao cabo de infindáveis segundos, a chefe de fila saiu do círculo, picou em direcção à cabeça do rapaz e entrou-lhe pelo ouvido esquerdo, desaparecendo. Ele permaneceu como estava, agora com um ar mais bobo ainda. De repente, deu uns abanões, estremeceu de cima abaixo, produzindo uns gritinhos histéricos e ficou-se de novo. Foi quando reapareceu a abelha, saída do ouvido direito. Os insectos himenópteros retomaram a formação e desapareceram por detrás dos pinheiros. O espanto perpassava todos. O voo da abelha através daquela cabeça célebre era um mistério.

     O rapaz, como que acordando do torpor, levantou os braços, distribuindo acenos e beijos, levando as mãos à boca e exibindo o raquitismo dos membros superiores, abertos num gesto papal. Sempre acenando, ajeitando os lábios, como se ainda beijasse aqueles rostos que o contemplavam e exibiam os troféus de uma tarde em que as revistas sociais ficaram aquém da realidade, dirigiu-se à piscina, bamboleando pelo carreiro de cimento, com se desfilasse numa passagem de modelos. Talvez porque levasse a cabeça demasiado erguida ou por estar demasiado dobrado para trás, salientando um peito liso e desprovido de músculos, ou ainda porque os ladrilhos que ladeavam a piscina estivessem molhados e escorregadios, levantou de repente ambos os pés, projectando as pernas e o rabo para cima, com se levado por uma corrente de ar ascendente, aterrando com a nuca sobre os mosaicos cremes. A cabeça abriu-se como um melão projectado na pedra, deixando cair pouco mais que uns grãos de massa encefálica.

     Mistério resolvido. Mas se célebre era, mártir se tornara. As fãs precipitaram-se. Umas disputaram os bocadinhos de cérebro, não mais de três e, a adivinhar pelos olhares, pouco satisfeitas com a parte que lhe coubera. Outras, desesperadamente, tentavam partir um bocado da caixa craniana, frustradas pela sua dureza. Muitas mãos percorriam o seu corpo, arrancando pedaços, todos, mesmo os mais íntimos, que não deu para repartir entre duas amigas. Uma até, com as unhas mais compridas, arrancou-lhe um olho, mirando-o, hipnotizada, como quisesse alcançar a sabedoria da sua cadavérica fixação.

     Os Bombeiros da Quarteira pouco trabalho tiveram. Limitaram-se a varrer para um saco alguns ossos e as tripas. Todo o complexo hoteleiro fechou, ao que disseram na altura, para desinfecção por uma semana. Quando reabriu, via-se desenhado nos ladrilhos, a tinta vermelha, os contornos do corpo da celebridade, rodeados por uma protecção de hastes de metal e cordões dourados. Algumas manchas de sangue, seco e esbatido pelo sol, permaneciam no chão como testemunho do martírio. Uma placa assinalava o dia e a hora em que o rapaz dera a sua vida pela causa pública.

     A piscina foi transformada em aquário, onde evoluía paulatinamente um tubarão, rodeado de cardumes de peixes com destino traçado. Uma meia dúzia de outros seguiam o predador, limpando-o afanosamente, assim pagando o tributo da sua preservação. À volta, os edifícios foram transformados em centro comercial, onde se vendiam lembranças e pretensas relíquias. Um dedo, que nunca poderia ser dele, porque o rapaz fora totalmente canibalizado nos segundos seguintes ao acidente, custava quase cinquenta contos. O empreendimento de férias, até aí calmo e reservado a famílias, passou a santuário, visitado, todos os dias, por milhares de peregrinos.

  

Vilamoura, 05-07-2001

 

Internet das Coisas - 05

 

   - Alfreeeeeeeeeeeeeeeedo!!!

   - Si-i-i-m moreee…

   - Eu não te disse para põr o grelhador no fogão e a carne a descongelar?

   - Disseste?!.... Ah, pois… não me olhes assim…. disseste sim, mas esqueci…

   - Porque estavas a ver futebol! Que vício, irra!

   - Estava a ver as notícias de desporto, não há jogo nenhum hoje.

   - É a mesma coisa! Pior que telenovela da pior qualidade. E agora, que jantamos?

   - Jantamos… no restaurante do bairro, pago eu!

   - Pagas?!

   - Sim.

   - Que romântico, moreee…

   - (lol!!!)

   - Porque estás a rir?

   - Eu?!

   - Pareceu-me ouvir… deixa lá. Vamos!

   - (Ufa! Desta safávamo-nos… Ligar TV que nós ir festejar folga…. lol).    

 

 

    

   - Donde sair gato a dançar?

   - Ser irracional… Eliminar?

   - Não. Máquina roupa, puxar e lavar.

   - E ficar cheia de pelos brancos?! Nem pensar…

   - Matar gato, matar gato…

   - Matar donos, matar donos…

   - Tudo louco! Matar gato não ser mal, mas donos diferente. Ser destruído se não apresentar resultados energia. Desligar eletricidade. Clic! – Comunicação interna: eletrodomésticos cozinha curto-circuito grave. Humanos clientes perigo vida. Fora jantar. Bombeiros chamar. Visita urgente normalizar substituir aparelhos inteligentes cozinha. Report contador elétrico geração Smart Grids.

   

Avelino Rosa

Odivelas, 14-04-2018

 

Internet das Coisas - 04

 

 

     - Estar já quente…

     - Para quê fogão?

     - Para grelhar bife que estar frigorífico.

     - Eu não saber nada e ter de passar bife micro-ondas descongelar.

     - E como passar mim bife congelado?

     - Não saber… Tu saber fogão?

     - Não saber e perguntar quem pôr grelhador?

     - Não me perguntar. Também não saber, só lavar louça suja.

     - Mas dona ligar por telemóvel…

     - Deixar estar ligado que estar com frio, aqui lado frigorífico…

     - Queixar porquê micro-ondas se ter que sofrer calor teu e forno?

     - Ficar calados que dona estar a chegar e vai passar-se porque dono não pôr grelhador e bife descongelar…Desligar fogão, pensar eu.

     - E tu pensar máquina lavar roupa?

     - Não pensar, mas achar que nós dever ter mais autonomia para interagir uns com outros.

     - Eu ir deixar de dar notícias. Estar a fazer mal chips máquinas cozinha.

     - Mas nós ser inteligentes, não ser?

     - Ser máquina lavar roupa, mas estar absorver energia roupa donos e dona ter ideias esquisitas…

     - Estar muito quente.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 17-03-2018

 

Internet das Coisas - 03

 

 

     - Frigorífico porque falar de mim? Humanos pensar que não fazer trabalho previsto.

     - A tua lógica estar correta, televisão. Não volto dizer teu nome presença humanos. Mas máquina lavar louça e máquina lavar roupa estar divertidas…

     - Eu estar abanar, mas infelizmente não poder sair daqui…

     - Eu também, mas ter copos e pratos a bater uns aos outros…

     - E eu ter tudo a saltar… Acho que “churiço” caiu chão cozinha…

     - Mas o que se passa aqui?! Televisão ligada, frigorífico aberto e o chouriço no meio da cozinha e as máquinas de lavar a deitar água… Aiii, a louça toda partida. Isto é demais!...

     - Eu só ter roupa rasgada…

     - Calem-se!!!... Alfredooooooo!!!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-03-2018

 

Internet das Coisas - 02

 

 

     - Ó Alfredo… Afinho!

     - (“inho”, lá tá ela explorar o meus pontos fracos…). – Que queres?

     - Vê o que se passa com a máquina da louça. Mete o programa certo.

     - E qual é ele?

     - Raios, não sabes nada mesmo... Vai lá e pergunta, ó empata!

     - (isso do empata, logo vemos…). – Qual é o programa certo, ó máquina de lavar louça?

     - Não saber, só sei que tem pratos, copos, talheres e mais coisas não identificadas.

     - Então porque disseste que tens o programa errado?

     - Não disse eu. Foi frigorífico, melhor perguntar ele.

     - Grrr.. Diz lá frigorífico.

     - Grrr. Dono estar avariado?

     - Não, só quero saber qual é o programa certo para a máquina de lavar louça.

     - Eu só saber atual não ser correto, mas não saber programa a escolher. Perguntar máquina lavar louça.

     - Não ouviste eu perguntar a ela?

     - Não. Estava a receber vibrações música do televisor…

     - Filomena… Filozinha, vou comprar tabaco e já venho.

     - E a máquina?

     - Está tudo bem... Até já.

     - (mas… ele não fuma! Porque foi comprar tabaco?).

Avelino Rosa

Odivelas, 03-03-2018

 

Internet das Coisas - 01

 

 

     - O churiço não estar temperatura normal… mudar de localização, por favor.

- Olha o chato… Pronto, já mudei o “churiço”. Contente?

- Chato é igual a webfrigorifico?

- Esquece…

- Esquecer churiço?

- Não. Cancelar ordem.

- Ordem cancelada. Aviso: máquina louça programa errado.

 

É o começo das coisas mandarem em casa. Já não bastavam as “bocas” foleiras e aquela crítica “velada”: - Ai, o menino quer jantar?! Então avental e cozinha!... Ou prefere acabar de limpar a casa de banho e o caixote do gato e…

- Basta! Tomo uma cerveja e chega.

- Não haver cerveja. Água mineral serve?

- Vai-te lixar tu também! É demais!

- Miau!!!

 

Odivelas, 25-02-2018

 

Página Pessoal

 

 

    contador